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Os invisíveis

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A rua sempre foi pública. Talvez, no passado, ela tenha sido até mais pública que nos dias de hoje. E por aquelas vias circularam dezenas de diferentes sujeitos. Pedintes, vendedores ambulantes, artistas de circo anunciando estreia, homens vendendo a salvação.  Um desses “comerciantes da salvação” era de um grupo de moços, vestidos com seus terninhos, todos com o cabelo raspado e pedia para entrar nas nossas casas, benzendo-as com a imagem de uma das Nossas Senhoras. Além da imagem que carregavam, os acompanhavam umas bandeirolas vermelhas bordadas com a figura de um leão. E bem ao gosto medieval. Garantia-se assim, que a pátria brasileira não seria importunada pelo comunismo. Outros tipos perambulavam e batiam palmas de casa em casa, anunciando suas presenças. Um deles eram mulheres com crianças no colo, apresentando-se maltrapilhas, quase todas com uma ferida exposta numa das suas pernas e esmolando uma “ajudinha pelo amor de Deus”.  De todos que circularam por...

Os segredos dos construtores

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U m vídeo caseiro, desses que nós fazemos para registrar situações curiosas e inspiradoras do nosso cotidiano, circula pela rede social Facebook. Nele, um pai reboca uma casa e o enfoque dado é para o seu filho, um garoto entre oito a dez anos de idade, chapando massa na parede. Além de ajudar o pai no trabalho o menino também está começando a aprender um ofício.  Meu pai foi pedreiro. Aprendeu a atividade com Domingos Ciotto e seus irmãos Ourides, Raul e Velasco, os construtores da casa dos meus avós Vitaliano e Ermelinda, na Rua Ângelo Capovilla, no início da década de 50. Saídos do mundo rural para a vida urbana, meu avô percebeu ali a oportunidade para o seu filho mais velho capacitar-se numa profissão, sem se submeter a um patrão. Qualificou-se no exercício do fazer e construiu dezenas de casas proletárias na periferia valinhense nas décadas de 50 e 60. Em 1967 abandou essa profissão ao ser tragado pela fábrica, afinal, seus filhos cresciam e precisavam de assistência m...

Cheiro da nova estação

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E lá veio dezembro para dar fim nesse ano de 2016. Conturbado e mais cheio de baixos que altos nessa nossa nação brasileira. Costumeiramente, salvo alguns deslizes, um mês para estampar a esperança no novo que se aproxima.  Mas a surpresa nos reservou um aborto vindo do céu, e a tragédia se fez coletiva. O aborto também nos surpreendeu quando o ferreiro das palavras despediu-se da têmpera poética.  Ídolos da massa, massificada por um sentimento de dor coletiva, vimos a esperança depositada numa juventude do nosso país esvair-se na imbecilidade de sujeitos preocupados com o acumulo de “la plata”, quando deveriam terem sido cingidos pelo respeito, tal qual desejou Viracocha Pachacaiachi*.  As madrugadas, outrora inspiração dos poetas e boêmios, agora usurpados da criação, das belezas contidas nas melodias que encantaram gerações, e transformadas na condição sorrateira das maldades por maldosos. Sujeitos, que em tese, deveriam ser portadores da ética e construt...

Além do figo roxo

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A cordei numa manhã de chuva fina, tragado por uma obra do artista Marcos Guimarães, que emoldura a Câmara Municipal valinhense. Descobri que o Olimpo é mais perto do que sempre imaginei. Assistia a uma partida de xadrez de lances estranhos, sem muito estudo, desse ou daquele outro deus. A partida entediava e do Olimpo descobri a polis lá embaixo, habitada por alguns semideuses e milhares de mortais. Passo a investigá-la. Painel Comemorativo alusivo ao centenário de Valinhos   como Distrito de Paz, 1996 - Marcos Guimarães No horizonte avistei enormes plantações de cana de açúcar e muitos negros trabalhando sob um sol escaldante e chibatadas que por vezes feriam um ou outro. Vejo o feitor, homem embrutecido que avança sobre uma criança, seu pai abandona o árduo trabalho e trava luta com o feitor, senhor dos castigos e malvadezas. Defendendo sua filha, o negro da uma “piuvada” com a enxada na cabeça do agressor, que tomba inerte. O escravo foge e pega caminho em direção da...

"Repara bem no que não digo" Paulo Leminski

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Joga as casas pra lá, joga as casas pra cá, faz caringundum

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N o último dia 06 de Agosto de 2015 comemorou-se os 105 anos de nascimento do poeta compositor Adoniran Barbosa. No Districto de Vallinhos nasceu João Rubinatto, filho de imigrantes que deixaram a Itália no final do século XIX em busca de trabalho e felicidade. O Brasil foi destino para milhares de homens, mulheres e crianças. Apesar do trabalho nas lavouras de café a vida foi difícil para essa brava gente. Grupos familiares se deslocavam saindo de áreas rurais e buscando melhores condições em regiões urbanas. João Rubinatto e sua família foram se deslocando de cidade em cidade até chegarem a capital paulista.  Adoniran Barbosa O compositor e sambista Adoniram Barbosa nasceu da poesia cotidiana que a cidade de São Paulo produzia com a sua rápida industrialização e transformação urbana. Essas mudanças atraíram para essa cidade uma massa de trabalhadores oriundos de várias regiões brasileiras. O olhar atento de Adoniram traduziu em delicadas linhas, sambas que nos mostravam a...

Reinvenção

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A vida só é possível reinventada. Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas… Ah! tudo bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo… — mais nada. Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada. Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços. Projeto-me por espaços cheios da tua Figura. Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura. Não te encontro, não te alcanço… Só — no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva. Só — na treva, fico: recebida e dada. Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada. ____Cecília Meireles Imagem:  Uma menina descansa em uma pilha de flores descartadas de um mercado, um dia após as celebrações de Diwali em Mumbai, na Índia, em 31 de outubro de 2016. -  Shailesh Andrade/Reuters