Lembrança de uma cadeira

Noite quente e a casa estava escancarada.  Portas e janelas abertas e brisa leve invadindo o lugar. A família e alguns vizinhos conversavam na sala e as crianças atentas naqueles causos cabeludos, de atrasar o sono.

Numa rajada de vento fresco ele foi empurrado para dentro da casa ocupando o melhor lugar. Acomodou-se no braço da cadeira de balanço da dona Jacira, ocupada preparando uma mesa de doces e sucos para embalar aquela noite.

O ilustre visitante noturno ficou ali, quieto, investigando o lugar sem ser notado. Convidados para aquela mesa farta, as crianças correram para ocupar os melhores lugares. Violino, o cachorro da casa, aconchegou-se debaixo da mesa na esperança de qualquer pedacinho de quitutes. Os adultos se entreolhavam felizes pela cena que ia sendo construída.

O visitante ousou mudar de lugar indo para bem pertinho do bolo de milho. Descoberto pela garotada um grito de pânico foi lançado ao infinito daquela grande sala. Dona Jacira, na sua suavidade anuncia para que ninguém tocasse nele: "deixa o bichinho quieto".

Curiosos, fixaram olhar naquele visitante noturno, que juntando suas garras fazia gesto de devoção e agradecimento. E todos se fartaram naquela noite de calor, causos e comilança. E o visitante se foi pela mesma janela que veio. Louvado seja deus!



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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada

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