Fusão de confusão

O trabalho foi o verbo conjugado que nos constituiu numa cidade talhada inicialmente na identidade da “Valinhos, terra do figo roxo”. Anos mais tarde a fartura suscitou a emancipação do distrito agora transformado em município, cravando no seu brasão de armas suas fontes de riquezas com a indústria ocupando o centro de destaque ladeado pelo figo e a maçã.
Na metade da segunda década do século XX, a fruticultura era uma atividade rentável aos seus produtores e o figo era considerado o melhor do Brasil. Há pouco mais de 100 anos, Valinhos começava ser esboçada. 
Em 1914, dentro do núcleo urbano de Valinhos, conforme dados da Estatística Predial da Prefeitura de Campinas, existiam 136 imóveis construídos. Sendo praticamente metade deles pertencentes aos imigrantes ali residentes. No ano de 1918 a população local era de 5484 pessoas, de acordo com uma publicação da Junta Central de Recenseamento de Campinas. E todos que aqui viviam e trabalhavam também se alimentavam de arte e emoção. 
O cinema no mundo começou com os irmãos Lumière em 1895, na cidade de Paris. Chegou ao Brasil no ano seguinte quando aconteceu a primeira exibição na cidade do Rio de Janeiro. Em 1897 a primeira sala de exibição é inaugurada nessa cidade pelo imigrante italiano Paschoal Segreto. No ano seguinte, o italiano Vítor Di Maio abre a primeira sala de cinema em São Paulo. No início o cinema era mudo e somente na década de 1930 que surge o cinema falado. 
E todos que aqui viviam e trabalhavam também se alimentavam de arte e emoção
Esse imaginário de modernidade logo nas primeiras décadas do século XX, também se consolidavam em Valinhos com duas casas de diversões destinadas a população local, o Theatro Bijou e o Theatro da Paz. Cada uma delas possuindo suas bandas musicais para animarem seus eventos e também os intervalos das apresentações dos filmes, que naqueles tempos eram mudos. 

Sobre essa questão, José Spadaccia, no livro “Monografia Histórica de Valinhos”, comenta que nos “dias de exibição de filmes, a banda (do Teatro Bijou) descia a rua tocando (...) e passava em frente ao cinema (Teatro da Paz), numa autêntica provocação, e em represália, a banda (do Teatro da Paz) fazia o mesmo (...)”. Essas provocações muitas vezes terminavam em brigas. Essas diferenças foram resolvidas com um acordo entre os proprietários dessas casas de diversões, "todos italianos”, ficando combinado que passasse a existir apenas um teatro, o da “Paz”. Também ficou acertado que as duas bandas musicais seriam unificadas, que se “transformou na Corporação Musical São Sebastião”, afirma José Spadaccia.  Em 1968 essa banda passou ser conhecida como Corporação Musical de Valinhos.   
A unificação desses dois teatros de fato aconteceu no início de Dezembro de 1914, sendo manchete no jornal “Correio Paulistano”. A notícia não enaltecia o surgimento desse novo teatro, fruto da concórdia, mas sim a uma confusão “devido á fusão das duas casas de diversões ali existentes, denominadas Bijou-Theatre e Theatro da Paz, frequentados por grupos diferentes, houve um conflito, no qual tomaram parte de muitas pessoas daquela localidade”. Diversas pessoas ficaram levemente feridas, já “Demetrio Chimiara, com ferimentos, um nas costas, produzido por um punhal, e outro na cabeça”. Algumas prisões foram efetuadas pelo destacamento policial local e na manhã seguinte o delegado de Campinas, veio até Valinhos para apurar o caso. Constatou que cinco pessoas saíram feridas desse conflito e identificou as lideranças da confusão do dia anterior, Elias Pisciotta e os irmãos Gabriel e Demetrio Chimiara. Em Fevereiro de 1915, perante o juiz da 1a Vara, em Campinas, “foi realizado o sumário de culpa de Elias Pisciotta e outros que se agrediram no conflito da fusão”.

Apesar do ocorrido os sócios Pisciotta e Costatto, proprietários do Teatro da Paz, atravessaram aquela década levando momentos de magia e emoção para os seus frequentadores.  Em 1916, uma nota publicada num jornal da capital paulista enaltecia os proprietários desse teatro pela exibição de importantes filmes, “proporcionando aos vallinhenses algumas horas bem agradáveis. Com uma enchente á cunha, foram exibidos domingo último os films ‘Judeu Errante’ e ‘O Condenado’”. E para agradar o público havia sorteios em dinheiro, “duas libras esterlinas aos espectadores, sendo contemplados os números 418 e 332”.
Cena do filme "Marco Antônio e Cleópatra", 1913.
Em 1917 a empresa Pisciotta & Costatto recebe o Alvará de Licença para o funcionamento do “Cinematographo”, expedido pela Delegacia de Polícia de Campinas. Era certo que por mais aquele ano o público valinhense continuaria se alimentando de magia, arte e emoção, agora no “Cine da Paz”.
A produção desse texto demandou uma pesquisa em antigos jornais e também de uma literatura que trouxesse luz sobre essa questão das casas de diversões no início do século XX. Após uma leitura cuidadosa foi possível perceber a existência de outra história, aquela que está escondida, na pouca literatura que dispomos sobre Valinhos. São nessas negações que elas reaparecem latentes e reverberando. 
É bem provável que muitos daqueles que participavam dos diferentes grupos de frequentadores desses dois teatros e que viviam em constantes conflitos, logo no início do século XX, já era o embrião dos grupos que iriam se enfrentar em várias ocasiões de futuro, com seus diferentes projetos econômicos e políticos no município de Valinhos. Mas isso é tema para um futuro e novo texto. 
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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada 

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