4 x 1

Amaro da Conceição decidiu deixar sua terra natal lá nos confins do interior paraibano. Cansado da exploração dos coronéis, da seca, da fome e da morte, vizinha da pobreza, sonhou a terra prometida no sul do Brasil. Plantado na beira da estrada empoeirada assistia os últimos instantes do gado agonizando enquanto esperava a chegada do pau de arara. Na trouxa levava uma muda de roupa e uma rede de dormir. Segurando firme no guarda corpo do caminhão, saltou pisando firme naquele tablado paupérrimo e lá se foi carregando no coração imensa saudade. 

Após 10 dias sacolejando desembarcou na capital fluminense, arranjando abrigo no Morro do Adeus. Labutou como estivador, gari e pedreiro. O trabalho e aprendizado na construção civil o levaram para algumas dezenas de cidades do interior em busca do pão. 

Homem de caráter firme e têmpera forte correu trecho pelo interior do país. Seu olhar atento compreendeu que as pessoas poderiam ter uma vida mais digna se houvessem mudanças nos hábitos de governança. Com o tempo foi construindo uma crítica contundente aos costumes republicanos que se enraizaram no Brasil. 

Onde já se viu, dizia ele, governantes e suas comitivas subirem no palanque e estrilarem palavras desconectadas para inaugurar um mísero chafariz no centro da cidade e a população sofrendo com a falta de água encanada? Contava que pela janela de um quarto de pensão na cidade de Tabijara, via uma enorme procissão de sujeitos descendo com latas vazias de sonhos e subindo como burros de cargas com água pra comer e banhar. 

Fazia uma analogia, ao comparar o mandato de centenas de prefeitos ao ato de se preparar um picadão. Muitos depois de eleitos gastavam o primeiro ano do seu mandato alisando a palha. O segundo ano era o tempo de picar o fumo, esfarelar e enrolar o picadão. No terceiro ano quando então achava que ia acender e pitar, o prefeito colocava o picadão na orelha, cuspia na palma de uma mão e esfregava na outra. Então no quarto ano, o prefeito tirava o picadão da orelha levando-o até a boca, riscava um palito de fósforo e acendia dando uma pequena baforada. E ainda não estava pronto, faltava dar mais uma pilada no fumo. Somente depois de bem socado é que o picadão poderia ser pitado em longas baforadas. Mas o tempo já se esgotava, então, buscavam a reeleição.

Assim, Amaro da Conceição, defendia a ideia que prefeitos deveriam ser eleitos para somente um ano de mandato. Pois o tempo de preparar o picadão é sempre tempo de pura enrolação. Nada mais.

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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada. 

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