O eu plural


Eu não sou oposição, sou cidadão e reivindico a cidadania. Se existe o desejo, portanto, ela também pode sair do plano individual para se tornar coletiva. Afinal vivemos numa sociedade onde nossos direitos, em tese, são garantidos pela nossa Constituição de 1988: alimentação, saúde, educação, cultura, emprego, moradia, segurança, etc. E para atingirmos esse direito individual ou coletivo não podemos passar a nossa existência cidadã dizendo apenas “améns” aos governantes, que muitas vezes nos retiram direitos e conquistas, cerceando nossa cidadania. 

Durante longos anos que atuei como professor foi comum ouvir de alguns pares que “todos falam em direitos, mas se esquecem dos deveres”. Uma pena! Afinal, o que muitos não sabiam é que “direitos e deveres” nasceram entrelaçados, um é a complementação do outro. Sempre pensei que nessa afirmação residia a vontade de inibir o outro na sua reivindicação, uma espécie de castigo, desses que muitos se ressentem de saudade dos tempos mais duros da nossa história. 


E quando reivindicamos qualquer que seja o nosso direito é comum na nossa fala à crítica. E é assim que tem que ser: apontar o erro, fazer a crítica e em seguida a proposta. Ultimamente, tenho observado nas redes sociais o surgimento daquilo que costumo chamar de “jagunços cibernéticos”. Sujeitos armados com suas cartucheiras verbais, disparando rajadas de palavras duras, desejando abater qualquer cidadão que reivindique o seu direito à cidade. A truculência é tamanha que conseguem abater o reclamante, moralmente. 

Penso nesses 350 anos de escravidão no Brasil ainda interferindo agressivamente nas relações cotidianas de poder. Sebastianistas a espera de um pai, preferencialmente autoritário, de chicote em punho para reestabelecer a "ordem". Daí tantos apoiarem a intervenção militar, ditadores ou mesmo homens supostamente investidos de poder divino. E não têm faltado capitães do mato para tal empreitada. 

Lembrem-se, governantes foram eleitos para garantirem direitos individuais e coletivos. Muitos com pouco mais de 1/3 dos votos, mas não pela vontade da maioria, que optaram por outros projetos. E mesmo derrotados nas nossas escolhas continuamos cidadãos. Democracia é isso. 

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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada

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