Cheiro da nova estação

E lá veio dezembro para dar fim nesse ano de 2016. Conturbado e mais cheio de baixos que altos nessa nossa nação brasileira. Costumeiramente, salvo alguns deslizes, um mês para estampar a esperança no novo que se aproxima. 

Mas a surpresa nos reservou um aborto vindo do céu, e a tragédia se fez coletiva. O aborto também nos surpreendeu quando o ferreiro das palavras despediu-se da têmpera poética. 

Ídolos da massa, massificada por um sentimento de dor coletiva, vimos a esperança depositada numa juventude do nosso país esvair-se na imbecilidade de sujeitos preocupados com o acumulo de “la plata”, quando deveriam terem sido cingidos pelo respeito, tal qual desejou Viracocha Pachacaiachi*. 

As madrugadas, outrora inspiração dos poetas e boêmios, agora usurpados da criação, das belezas contidas nas melodias que encantaram gerações, e transformadas na condição sorrateira das maldades por maldosos. Sujeitos, que em tese, deveriam ser portadores da ética e construtores dos fios condutores de um futuro de possibilidades coletivas, se rastejam pelos becos, pelos antros, pelos canos da fedentina local e federal e decidem um voto em si. Os roedores majoram seus subsídios e pensam com seus próprios umbigos na eminência de saírem ilesos da segunda caixa. Somos todos iguais perante a lei, mas a lei do abuso de autoridade, não é igual para todos. Que se combata o abuso e que se mantenha a autoridade, necessidade para o funcionamento do Estado. 

Esse sentimento foi sendo injetado nas veias da minha esperança, e por mais que tenha evitado a massificação das informações não foi possível escapar. O sutil da tristeza, um gás soprado pelos deuses andinos, deu combustão para milhões de rodas de conversas: é a tragédia nossa de cada dia. 

Os dias avançam e no nosso estômago da razão, necessitado das vitaminas dadas por uma nova poética, alimento indispensável para o fortalecimento da esperança, cai por inanição. Na ausência da poesia ficamos combalidos. Dureza, insistência diária oferecida ao povo brasileiro. 

2017 removem-se os velhos móveis da casa e renovem-se as esperanças. E que num futuro avistado distante das nossas retinas o novo homem nasça, assim como profetizou o apóstolo Paulo. 

* Viracocha Pachacaiachi, "Criador de todas as coisas", segundo algumas lendas relatadas por sacerdotes incas.

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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada. 

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