Os segredos dos construtores

Um vídeo caseiro, desses que nós fazemos para registrar situações curiosas e inspiradoras do nosso cotidiano, circula pela rede social Facebook. Nele, um pai reboca uma casa e o enfoque dado é para o seu filho, um garoto entre oito a dez anos de idade, chapando massa na parede. Além de ajudar o pai no trabalho o menino também está começando a aprender um ofício. 

Meu pai foi pedreiro. Aprendeu a atividade com Domingos Ciotto e seus irmãos Ourides, Raul e Velasco, os construtores da casa dos meus avós Vitaliano e Ermelinda, na Rua Ângelo Capovilla, no início da década de 50. Saídos do mundo rural para a vida urbana, meu avô percebeu ali a oportunidade para o seu filho mais velho capacitar-se numa profissão, sem se submeter a um patrão. Qualificou-se no exercício do fazer e construiu dezenas de casas proletárias na periferia valinhense nas décadas de 50 e 60. Em 1967 abandou essa profissão ao ser tragado pela fábrica, afinal, seus filhos cresciam e precisavam de assistência médica e odontológica, e ele, no futuro, uma aposentadoria.

Aprendi muita coisa com o meu pai, exceto alguns segredos dos construtores. As proporções das misturas das massas, assentamento de tijolos, chapisco, reboque, assentamento de ladrilhos e azulejos, usar o prumo deixando as paredes um “tom de viola”. Cresci com esse desejo e aguardei um curso rápido no Senai para esses macetes básicos, sem obter sucesso na sua realização. Depois que avancei a barreira dos cinquenta e poucos anos, “seu” Geraldo fez um trabalho de pedreiro e fui o seu servente. Prestando atenção no passo a passo desse magnífico saber, comecei a aprender. Dia desses, conferindo um trabalho que executei de assentamento de azulejos, meu pai cravou sem pestanejar: “você ficou um bom pedreiro velho”. Lacrou!

No tempo aprendi outras atividades. Como aquelas que foram ensinadas no ginásio, pelo mestre João Aubry, lá no Segundão, quando essa escola fez morada na Rua Americana, no início da década de 70. Professor da disciplina de “Artes e Ofício” ensinou técnicas dos artesãos empalhadores de cadeira, dos tapeceiros com seus pontos de macramê, dos fotógrafos com suas câmaras escuras, dos boleadores de chapas metálicas e tantas outras. 

O vídeo do pai que ensina o ofício ao filho já foi visto por mais de vinte milhões de internautas, rendendo milhares de comentários, a favor ou contra as orientações dadas ao menino. Enquanto assistia ao vídeo, observei uma ação negativa nos ensinamentos desse cidadão, cabendo a ele um puxão de orelha. Onde já se viu ensinar o filho a rebocar sem antes chapiscar a parede? Necessário sempre recorrermos aos antigos, com seus saberes e segredos. 
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Gérsio Pelegatti é professor da História não aposentada



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