Portões do delírio

Acordou cedo naquele sábado, vestiu sua roupa mais bonita e foi passear pelo centro da cidade. Caminhar despreocupado, encontrar antigos conhecidos, prosear, transitar pelos corredores do mercado municipal e namorar vitrines das lojas do comércio. Sentia um enorme prazer no descer e subir naquelas ruas e vielas, repletas de aromas e coloridos, possibilitando viajar por tantos fetiches possíveis e outros inatingíveis. 

Depois de uma boa média na Padaria do Nicolau, saiu, descendo os degraus e recolocando seus pés na calçada seguindo naquela manhã. Caminhando por olorosos corredores do mercado, surpreendia-se com os diferentes coloridos das especiarias. Uma parada para uma breve prosa com o senhor Fujita e saber das novidades vindas do Oriente: porcelanas, sedas, chás e mudas de plantas exóticas. Com chave-de-ouro fechou o sábado quando parou na Coda Discos e garimpar aquele vinil que tanto fazia gosto. 

Beijou o patuá que levava pendurado no pescoço, agradeceu aos céus e retirou o vinil da capa dando um leve sopro na poeira do tempo, colocando-o pra rodar na vitrola. O disco bailava solitariamente invadindo o lugar com uma melodia: “Soon oh soon the light, Pass within and soothe the endless night, And wait here for you, Our reason to be here”*. Fechou os olhos e esboçou um leve sorriso, em êxtase, a canção e seus acordes foram invadindo suas entranhas preenchendo-o de emoção. Delicadamente um sussurro invadiu o seu ouvido... 

Por um hiato de tempo, o espírito, livre da matéria ficou ali espreitando o novo antigo, juntos, numa nova conjunção de existência para um plano além. Aquele antigo novo ponto de luz misturou-se a outros milhares naquele espaço, dimensão paralela ao qual a matéria existia. Pontos brilhantes e imperceptíveis aos olhares vivos que observavam aquela carcaça em transe e quase inerte na Coda Discos. 

Descolando da carne, seu velho abrigo, o antigo novo ponto de luz experimentou uma nova morada, a da serenidade, reaprendendo numa fração de segundos sobre as diferentes crenças. Uma infinidade de luzes com diferentes matizes e de mesma grandiosidade apresentavam-se como representantes de todos os deuses que habitam corpos nessa nossa dimensão de existência. Novas velhas lições aprendidas vibram pelo espaço e nos são reveladas por manifestações inteligentes. 

A vida segue e que no mínimo sejam alicerçadas por relações de amor entre os nossos pares. E que assim seja! 


* “Breve oh tão breve a luz/Penetra e tranquiliza a noite sem fim/E esperando por você/Nossa razão de estarmos aqui” - Soon, Yes.

_______________
Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Incondicional

Falta gente nessa história

Enredo de bambas

Cidade invisível

À Rua Itália in memoriam

A morte foi uma festa?