Eu vou para onde o sol continua brilhando

Assistir a um filme, apreciar uma pintura, caminhar por uma rua, sentar num banco de uma praça e descansar os olhos, observar o caminhar despreocupado de uma pessoa qualquer, receber um elogio ou uma crítica, observar um gesto, ouvir uma música. Essas situações cotidianas e tantas outras são quase que invisíveis, de tão corriqueiras que elas parecem ser e nem sempre as percebemos como ingredientes indispensáveis na construção de nós mesmos. Mas são momentos encantadores e que ficam para sempre.

Assistia aos telejornais da noite, daqueles que mastigam os fatos do dia e cospem nos pratos sobre as mesas postas para o jantar da classe trabalhadora. O cardápio de sempre, salada policialesca de entrada e o prato principal coercitivo. Fico entediado e com náuseas ao me deparar com a mesma gororoba. Saio sem mexer na comida e busco um local mais agradável pra depositar o cadáver que carrego nos meus ombros. Encontro um oco no tronco de uma velha árvore e ali deposito o incomodo. Aliviado, estico o meu corpo na relva segurando minha cabeça com as mãos e cruzo a perna esquerda sobre a direita. Relaxo e sonho. Uma das tantas possíveis gavetas da minha memória se abre e vem revelar uma das minhas invisíveis lembranças. 

Num tempo lá longe de tão distante, existiu uma troca de doces olhares, momento único e de imensa maravilha naquela minha vida. Num daqueles dias de saudosa lembrança que fez meu coração pulsar por tanta delicadeza contida. Ah, quanta coisa saborosa naquela juventude portadora de possibilidades inimagináveis, quando buscava a liberdade do mundo que caminhava. Andava livre e feliz sobre as ideias, pois sabia que o momento aconteceria. Tudo pode no proibido. Assim, quando me deparei com o tempo da maturidade, nada mais foi estranhamento. 

O ônibus dos estudantes descia a Avenida Anchieta, e logo depois da prefeitura campineira havia um ponto. Estudantes subiram para mais uma longa noite em Santa Bárbara D’Oeste. No meio daquela juventude, ela estava misturada; linda, com seus cabelos longos e encaracolados, olhava para o chão. Parou ao lado da minha poltrona vaga, levantou os olhos amendoados e pediu se poderia sentar ali.  Acenei um sim com a cabeça e fomos trocando conversas, olhares e telefones. 

Meu coração virou coisa incontida no peito ao acariciar aquela tez bronzeada pelo sol de primavera, saborear os seus lábios e trocarmos juras de amor. Numa noite encontrei um bilhete no para-brisa do fusca que dirigia e estacionado próximo ao bar Armazém, na Av. Dr. Moraes Sales: “passei por aqui e não te encontrei, ‘Midnight Cowboy’... A.”. 

Escrevo desejando aquela emoção... Ela está lá no tempo, longe, agora visível na lembrança e aqui no meu peito. Midnight Cowboy, querida!
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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada.

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