Raciocínio barato

O debate entre os professores foi interrompido pela campainha. Um momento de pausa para esticarem as pernas e darem um descanso nos pensamentos. Seguiram pelo longo corredor que separava o auditório da área de descanso.
Acomodaram-se nas duras cadeiras daquele ambiente e entre um café e umas bolachas outras conversas nasciam. Um pequeno grupo de mestres continuavam elaborando outras ideias para o debate pausado, e uma colega nova, recém contratada pela Secretaria da Educação, ouvia atentamente.

Na primeira oportunidade a professora entrou na conversa e disse que sobre aquela questão tinha algo importante para falar. O grupo silenciou e se pôs a ouvi-la. Disse que na sua graduação aprendeu que toda palavra terminada em "ismo" é doença. Homossexualismo, capitalismo, consumismo, socialismo, comunismo, catolicismo...

Alguns professores buscavam nos seus pares a cumplicidade no olhar. E após a fala da professora um instante de silêncio reinou naquele ambiente. Mesmo os outros grupos que trocavam outras conversas ficaram mudos.
Um velho professor de humanidades, que lia o seu jornal no fundo da sala, interrompeu aquele momento e com sua costumeira calma disparou. Disse que gostaria naquele instante ser um doente terminal em Paris. E a professora novata quis saber por qual motivo. Disse ele "em Paris estaria doente de "ismo" e fazendo turismo".
O lanche terminou. Mas as pérolas continuam vagando pelos longos corredores da educação brasileira! 
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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada

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