Pauta reivindicatória do formigueiro

O chorinho do Zimba anunciando sua caminhada matinal me desperta. Ele todo pimpão, eu todo embaçado e perdido entre um pé do chinelo e a porta do banheiro.
Retorno. Ração, água e um agrado para selar a nossa relação de companheirismo.

Lavo uma e outra louça amanhecida de um jantar rápido na noite anterior. Fogo ligado, água no canecão, pó de café no coador, sol entrando pelo vitrô da cozinha... aguardo a mistura. Domingo manso que se inicia.
Sobre a mesa uma xícara, dessas grandes, e uma caprichada colher de açúcar. O beijo tem que ser doce, baby. Ali num canto da mesa, coberto por um guardanapo, pedaços de pão doce. Assim vou deixando o bucho e as bichas mais satisfeitos. Mastigo lentamente, e na mesma proporção dessa macia mistura os açúcares vão juntando-se e dando outros significados nos meus sentidos.

A mansidão matinal é vigiada pelo olhar atento do Zimba. Meu olhar que ainda desperta, flagra uma procissão de miúdas formiguinhas em passeata. Reivindicam micros nacos dos diferentes doces do meu pão. E fico ali mastigando atentamente aquele movimento reivindicatório. Identifico pelo menos três grupos distintos desses habitantes que transitam invisíveis pelo mundo da minha cozinha. Elas não brigam e em fila carregam seus "sonhos" por um formigueiro melhor.
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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada

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