O jardim da nossa alma

Vira e mexe me lembro de um antigo vizinho que tive lá no bairro Serrote, o Zé. A casa dele ficava do lado oposto da rua onde eu morava. Meu avô Vitaliano contava que aquele homem ouvia as pedras e isso sempre me instigou. Anos depois descobri que o Zé exerceu a profissão de canteiro. 

Por ter aprendido a língua das pedras, o Zé desenvolveu, tempos mais tarde a língua das plantas. Tinha um dos jardins mais lindos do bairro. Esse homem de passos lentos e ouvidos afiados que sabia ouvir a terra, trabalhava incansavelmente cavando, retirando ervas daninhas, revolvendo a terra, colocando esterco de vaca, regando e deixando o solo descansando. Dois terços de um largo corredor que ficava a esquerda da sua casa, a partir do meu olhar frontal, eram destinados para uma roça onde alternava plantações de quiabo, milho, mandioca, vassoura e o outro terço dava lugar para os canteiros de hortaliças. O colorido da frente da sua casa vinha das exuberantes flores que minha saudade consegue alcançar no tempo da minha memória. Encantei-me com as mais belas hortênsias, gerânios, dálias, crisandálias e margaridas que floresciam naquele seu “latifúndio”. Nesses pedaços do seu quintal cultivava todas as suas lembranças de menino, trazidas das tantas fazendas que imagino ter vivido.

Naqueles dias praticamente não existia uma frente de casa que não tivesse a mão do capricho dos seus moradores. No jardim da minha casa, as rosas sempre foram as flores preferidas da minha mãe, a dona Zuleika. Encantadoras roseiras dividiam lugar com seus caprichados e coloridos canteiros de rainhas-margaridas e palmas, plantadas sempre no dia 6 de agosto, dia de São Justo e São Pastor e colhidas às vésperas de Finados. Para ajudar nas despesas da casa, mamãe vendia maços de flores para muita gente naquela época. Flores que enfeitaram túmulos no cemitério São João Baptista, possivelmente um ancestral desejo de que os nossos entes queridos pudessem reviver a “lembrança” do natural.

Com o tempo, novos valores foram sendo consumidos. Quintais que outrora abrigaram hortas e pomares foram concretados. As frentes das casas transformaram-se em escuras garagens cobertas e limitadas por altos muros. Apesar dessas mudanças os jardins ainda acontecem, mas agora sem aquele colorido. As flores praticamente não chegam mais nas nossas casas pela doação de mudas e sementes como fazíamos antes entre a vizinhança. As verduras nós plantamos, muitas vezes, em pequeninos espaços que arranjamos. Mas de um jeito ou de outro elas acontecem, pois está embutido na nossa memória primitiva que além de produzirmos a nossa comida que alimenta o físico, também devemos produzir aquela que alimenta a alma.
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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada


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