Traquinagem criativa

Com uma ideia delineada fui ao computador para começar a despejar no “papel” as tais mal traçadas linhas. Digito algumas palavras e subitamente um pé de vento invade o terreiro da minha casa, lugar visto da janela do quarto , agora, transformado em escritório. Olho atentamente para os pedaços de coisas leves que voam pelos ares e penso que aquilo só podia ser coisa do moleque do gorro vermelho. Por instantes paro de pensar naquela ideia e persigo com o olhar um caminho antigo que me devolve aos anos 60. Agarrado na mão firme da lembrança lá fui eu.

Folhinhas de um antigo calendário vão sendo destacadas umas atrás das outras. Voa Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho. O mês oito fica ali acompanhado dos 31 guardiões do reinado de Augustus. Olho investigando aqueles centuriões e encontro dois pares de olhos sorrindo para mim. Apesar da timidez, ergo meu olhar e encaro e eles me acenam e lançam um convite para que eu entrasse ali. Mesmo acanhado faço menção de um passo à frente e um pó de perlimpimpim é lançado. Nessa magia descortina-se o passado e reencontro minhas primeiras professoras no "Sesi 299", Darcy Brandini e Dairze Capovilla Marchiore, 1967 e 1968.

Ocupo meu lugar naquelas salas contíguas e retomamos o saboroso ponto daquele mês: o Folclore. Sentado numa carteira ouço as “donas” dissertando para a classe: Folclore, do inglês Folk e Lore, povo e saber. Minhas ideias viajam para uma casa modesta próxima a "Fazenda do Manga", quase na divisa com Itatiba. Numa sala de estar com tijolos espelhados revestindo o seu chão, lá estou eu na companhia da minha avó Maria, narrando suas aventuras quando cruzou caminho com a Mula sem Cabeça, o Lobisomem, a Iara, o Currupira e o Saci-Pererê. Seres que povoaram esse distante e vivido tempo rural.

De todas as histórias aprendidas, coube ao Saci-Pererê se tornar o meu herói. Sempre imagino que ele deveria ocupar um lugar no panteão nacional. Caso fosse eu um sujeito dotado de poderes constitucionais e portador de uma caneta já tinha chancelado essa lei. Feriado Nacional do Saci-Pererê, dia que as nossas crianças do ensino fundamental demostrariam suas hipóteses para solucionar alguns problemas apresentados pelos professores no início do ano letivo. A traquinagem é uma habilidade essencial para desenvolver a nossa capacidade de abstração e criação. Ela é inspiradora e instigadora. 

Caso alguém queira obter um Saci para que ele possa instigar a sua capacidade de inspiração, vou dar uma dica. Sabe aquele bambuzal que existe atrás da barraca do vendedor de Garapa, ali próximo ao Condomínio Sans Souci? Então, ali é o Sans Saci, a morada dos moleques traquinas. Boa sorte! Ah, e não se esqueça de levar uma peneira! 
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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada





















































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