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Tio Mauro
Dia desses flagrei meu pensamento numa distante noite da década de 60 acompanhado dos meus pais e avós paternos. Partimos da casa 55 lá na Rua São Carlos, bairro Serrote, viramos à esquerda e caminhamos pela pouca iluminada Avenida 11 de Agosto. Ali na esquina, entre os bares do Negrello e do Geraldão, dobramos a direita e descemos a interminável Rua do Clube da Rigesa e no final dela entramos à esquerda, chegando ao Valinhos Clube. Uma noite para sempre, saboreada pela doce lembrança de um guaraná caçulinha, comprado pelo meu pai no bar do clube. Vestia minha melhor roupa, todo pimpão, fui assistir a apresentação do tio Mauro, tocador de guitarra no conjunto “Os Mug’s”.  

O feitiço
Naquela noite, o menino que agora me visita, ficou com os olhos enfeitiçados naquele instrumento que dava o caminho para os outros músicos seguirem suas estradas, a bateria. Na manhã seguinte fui até o fundo do quintal da minha casa, puxei um dos cavaletes usados pelo meu pai na construção civil e com o auxilio de um martelo e pregos, fui juntando coisas. Tampas de lata de margarina, latas de marmelada e latões de querosene, dois pedaços de cabo de vassoura para dar sonoridade àqueles penduricalhos. Pronto, minha primeira e única bateria estava montada. No meu repertório músicas dos Beatles, Ronnie Von, Os incríveis, Roberto e Erasmo, Wanderléa e nem ouvi a minha mãe, aos berros, pedindo pra eu parar com aquela barulheira. Ali, naquele pedaço de um mundo secreto, eu era mais um astro da jovem guarda, fazendo quantos solos imaginei necessários para uma plateia de seres que habitavam a imaginação dessa criança que agora me visita.


Canto
Meu pai, atento ao meu desejo musical, me fez aluno do maestro Orsi. Sob a sua batuta fui aprender a tocar Acordeom. Mudo, o menino travado pela timidez, afastou-se daquelas aulas orientadas pelo método do Prof. Alencar Terra. Insistente, meu pai me colocou pra cantar no Coral das Crianças, do Clube da Rigesa.

A fuga
Ai piorou, pois eu queria mesmo era tocar bateria. O que supostamente me seduzia era o ritmo do iê-iê-iê.

Desperdício
Até hoje não aprendi a tocar bateria, porém, eu passei todos esses anos da minha vida no fundo do palco, batendo num prato de condução, dando o caminho para que os outros sigam suas estradas. Fiquei ali, marcando passo, num compasso tímido!


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