Valinhos subtraído ao metro2

A crise hídrica que afeta Valinhos desde o início desse ano (2014), incrementou o debate sobre o acelerado crescimento urbano sem planejamento e seus impactos sobre a cidade. O tema vem sendo discutido pela sociedade através de encontros e ações organizados por cidadãos e entidades empenhadas na causa ambiental. Uma delas é a EVA, entidade sócio ambiental que desde 2004 busca viabilizar o direito ao acesso dos habitantes a cidade. A luta da entidade objetiva a preservação da Serra dos Cocais, uma das poucas áreas verdes da cidade e detentora de um grande manancial de água. 

A acelerada expansão urbana em Valinhos começou a ocorrer após a sua emancipação em 1953 e somente no ano de 1973 foi aprovada a primeira lei que disciplinava o uso do solo. A partir na década de 70, o município começou a perder extensas áreas agrícolas voltadas a produção frutífera. Produção essa que contribuiu para o desenvolvimento econômico valinhense e a construção da identidade local - Valinhos terra do figo roxo - hoje, esses espaços são reconfigurados por interesses ditados pelo mercado imobiliário especulativo. 

Entre os anos de 1950 a 2000, Valinhos teve 24,4 milhões de metros2 do seu território rural transformados em 15.996 novos lotes urbanos. Interessante observar que 8.152 desses lotes foram produzidos entre os anos de 1991 a 2000. Possivelmente essa quantidade pode ter sido dobrada até o ano de 2014.

Enquanto Valinhos persistiu no retalhamento do seu território, outras cidades da região, além de lançarem mão dessa prática, também planejaram políticas para atraírem novas plantas industriais que possibilitaram um aumento da arrecadação de impostos, ocasionando maior bem estar aos seus munícipes.

Pessoas de maior renda e qualificação profissional vieram residir nesses enclaves fortificados em Valinhos e trabalhar em empresas instaladas nas cidades da RMC. Esses atraíram os de menor renda, mão de obra que supriu o boom na construção civil e da ampliação do setor de serviços. 

A história ensina que é necessário estudar o passado para entender o presente e melhorar o futuro. No passado apostou-se num modelo de cidade que elevou o preço da terra inibindo a instalação de novas indústrias e restringindo a arrecadação de impostos, reduziu consideravelmente as áreas agrícolas e possibilitou a queda na oferta da água aos cidadãos.

Para o presente e futuro fica uma lição aos nossos governantes: se o “progresso” é inevitável, o cuidado com Valinhos é imprescindível.
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Gérsio Pelegatti é professor da história não aposentada

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